Tática e estratégia
(Mario Benedetti)
Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és
minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível
minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti
minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos
minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples
minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.
Ter 18 anos na cidade grande

A rotina de uma jovem paulistana que estuda em cursinho, trabalha em call center e não dispensa um só museu gratuito.
Na volta para casa, o 967A estava cheio, acho que é porque peguei mais cedo. Lá pelas tantas entrou um mendigo ouvindo um radinho de pilha e cantando. O cara estava alegre à beça, nem ligava para quem o olhava. Cantava todas as músicas com o rádio sintonizado na Gazeta fm. Cantava com verdade, com vontade. Como esta cidade é louca! E como eu gosto daqui. Eu ando sozinha pelas ruas de São Paulo desde os 12 anos, conheço esta cidade como o quintal de casa, e quanto mais eu a conheço, mais me espanto e mais a admiro.
http://www.revistapiaui.com.br/edicao_32/artigo_1007/Ter_18_anos_na_cidade_grande.aspx
La vita è cosi, maestro.
No mês de março, a revista Piauí fez uma reportagem sobre um senhor chamado Rudá de Andrade. Ele começou pela sua infância: “De mulher em mulher, meu pai me largou com o motorista”. Rudá tentou muita coisa durante uma vida turbulenta, sobretudo no ramo do cinema. Num dos seus desvios, entretanto, escreveu alguns poemas. Talvez não lhe faltasse inspiração, mas um pouco mais de conteúdo (no sentido quantitativo). Sobre um tempo em que passou preso:
A grade
agride
agrade
AFTERGLOW
Siempre es conmovedor el ocaso
por indigente o charro que sea,
pero más conmovedor todavía
es aquel brillo desesperado y final
que herrumbra la llanura
cuando el sol último se ha hundido.
Nos duele sostener esa luz tirante y distinta,
esa alucinación que impone al espacio
el unánime miedo de la sombra
y que cesa de golpe
cuando notamos su falsía,
como cesan los sueños
cuando sabemos que soñamos.
(jorge luis borges)
O amor nos tempos do cólera
O doutor Juvenal Urbino tinha sido aos vinte e oito anos o mais cobiçado dos solteiros. Voltava de uma longa estada em Paris, onde fez estudos superiores de medicina e cirurgia, e logo que pisou em terra firme deu mostras definitivas de que não perdera um minuto de seu tempo. Voltou muito mais atilado e senhor de sua índole, e se nenhum dos seus companheiros de geração parecia tão severo e sábio quanto ele em sua ciência, também nenhum havia, por outro lado, que dançasse melhor a música da moda ou improvisasse melhor ao piano. Seduzidas por suas graças pessoais e pela certeza de sua fortuna familiar, as moças do seu meio faziam rifas secretas no jogo de ver quem o prenderia, e ele também fazia suas apostas em relação às moças, mas conseguiu manter-se em estado de graça, intacto e tentador, até que sucumbiu sem resistência aos encantos plebeus de Fermina Daza. [...]
Olhou-se por um instante no espelho do carro e viu que também sua imagem continuava pensando nela.
La noche de los feos
Ambos somos feos. Ni siquiera vulgarmente feos. Ella tiene un pómulo hundido. Desde los ocho años, cuando le hicieron la operación. Mi asquerosa marca junto a la boca viene de una quemadura feroz, ocurrida a comienzos de mi adolescencia.
Tampoco puede decirse que tengamos ojos tiernos, esa suerte de faros de justificación por los que a veces los horribles consiguen arrimarse a la belleza. No, de ningún modo. Tanto los de ella como los míos son ojos de resentimiento, que sólo reflejan la poca o ninguna resignación con que enfrentamos nuestro infortunio. Quizá eso nos haya unido. Tal vez unido no sea la palabra más apropiada. Me refiero al odio implacable que cada uno de nosotros siente por su propio rostro.
…
http://www.literatura.us/benedetti/feos.html
M. Benedetti
Parfois je mens
« Mais tu sais, comme pour démentir d’un coup cette ébauche d’ascète espagnol, tes lèvres charnues te trahissent. En plus tes yeux brillent d’émotion. Tais-toi, je sais que tu détestes ce que je viens de dire, mais laisse-moi terminer. J’ai l’impression que les femmes doivent plutôt te trouver un beau garçon, même si tu es persuadé du contraire. Mais oui, et aussi ton expression, un mélange de pureté, mélancolie et de sensualité réprimée. Attends… Une anxiété dans tes yeux, sous ce front qui ressemble à un balcon en saillie. Je ne sais pas si c’est justement ça qui m’attire en toi. Je pense que c’est autre chose… L’esprit qui domine la chair, comme si tu étais toujours au garde-à-vous. En fait, attirer n’est peut-être pas le mot, mais tu m’étonnes, tu m’émerveilles ou tu m’irrites, je ne sais pas… Ton esprit domine ton corps comme un dictateur austère. Comme si Pie XII devait surveiller un bordel. Allons, ne te fâche pas, je sais bien que tu es un ange. D’ailleurs, comme je viens de te le dire, je ne sais pas si c’est ce que j’aime en toi ou ce que je déteste le plus.»
As travessuras da menina má
“Depois, imagino, todos foram se esquecendo de Lily e Lucy, porque outras pessoas, outros assuntos vieram substituir essa aventura do último verão da nossa infância. Mas eu não. Não me esqueci, principalmente da Lily. E, embora tenham se passado tantos anos, e Miraflores tenha mudado tanto, assim como também os costumes, e se eclipsaram as barreiras e os preconceitos que antes se manifestavam com insolência, e agora são disfarçados, eu a guardei na memória e às vezes a evoco, para ouvir a risada travessa e o olhar zombeteiro de seus olhos cor de mel escuro, e vê-la se arqueando feito um bambu ao compasso dos mambos. E continuo achando que, apesar de já ter vivido tantos verões, aquele foi o mais fabuloso de todos.”
Ni ici, ni ailleurs.
“Um homem precisa viajar.
Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv.
Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu.
Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor.
Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto.
Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.
Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser;
que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”
Trecho de “Um home precisa viajar” do Amyr Klink.
Cien años de soledad
“El coronel Aureliano Buendía promovió treinta y dos levantamientos armados y los perdió todos. Tuvo diecisiete hijos varones de diecisiete mujeres distintas, que fueron exterminados uno tras otro en una sola noche, antes de que el mayor cumpliera treinta y cinco años. Escapó a catorce atentados, a setenta y tres emboscadas y a un pelotón de fusilamiento. Sobrevivió a una carga de estricnina en el café que habría bastado para matar un caballo. Rechazó la Orden del Mérito que le otorgó el presidente de la república. Llegó a ser comandante general de las fuerzas revolucionarias, con jurisdicción y mando de una frontera a la otra, y el hombre más temido por el gobierno, pero nunca permitió que le tomaran una fotografía. Declinó la pensión vitalicia que le ofrecieron después de la guerra y vivió hasta la vejez de los pescaditos de oro que fabricaba en su taller de Macondo. Aunque peleó siempre al frente de sus hombres, la única herida que recibió se la produjo él mismo después de firmar la capitulación de Neerlandia que puso término a casi veinte años de guerras civiles. Se disparó un tiro de pistola en el pecho y el proyectil le salió por la espalda sin lastimar ningún centro vital. Lo único que quedó de todo eso fue una calle con su nombre en Macondo. Sin embargo, según declaró pocos años antes de morir de viejo, ni siquiera eso esperaba la madrugada en que se fue con sus veintiún hombres a reunirse con las fuerzas del general Victorio Medina.”


